Validação Científica de Programas de
Reabilitação Neuropsicológica na Lesão Cerebral Adquirida: Traumatismo Crânio-
Encefálico
O
Presente artigo de opinião pretende abordar a pertinência do aperfeiçoamento e
validação dos programas neuropsicológicos, mais especificamente, no caso da
lesão cerebral adquirida - Traumatismo crânio encefálico.
O
artigo pretende também traçar um caminho sólido da teoria à prática. De um
enquadramento teórico do TCE, pretende-se chegar a uma melhor e fundamentada
reflexão sobre o quadro, bem como promover um planeamento sustentado das
baterias de avaliação e programas de reabilitação. Neste sentido será
pertinente abordar a constituição e as características dos programas com o
intuito de sensibilizar e incentivar a investigação para o seu aperfeiçoamento
e validação, à luz de cada quadro neuropsicológico.
Vários
esforços têm sido feitos, contudo, o caminho da procura de especificidade e
validação dos programas deve continuar.
Lesão Cerebral
Adquirida: Traumatismo Crânio- Encefálico
1.1 Definição
O Traumatismo Crânio-Encefálico
representa um tipo de lesão cerebral
traumática que tem adquirido proporções “epidémicas” na nossa sociedade
(Bravo & Bóveda, 2009 cit in Manual
de Protocolos Y Actuación En Urgencias Para Residentes, 2010).
Este tipo de lesão é considerado por
uma agressão que causa uma lesão anatómica ou comprometimento funcional do
couro cabeludo, crânio, meninges ou encéfalo e, de modo geral, encontra-se
dividido de acordo com a sua intensidade (leve, grave e moderado). (Oliveira,
Webilinger & Luca, 2005; Spanholi, 2008).
1.2. Implicações do Traumatismo Crânio- Encefálico
Segundo Spanholi,
(2008), as vítimas que sobrevivem ao TCE podem apresentar deficiências e
incapacidades temporárias ou permanentes, interferindo na capacidade do
indivíduo de desempenhar as suas funções.
Tabela
1. Implicações do TCE
Físicas
|
Cognitivas
|
Comportamentais/
Emocionais
|
. visuais;
. motoras;
(etc)
|
. diminuição da memória;
.dificuldades de atenção e
aprendizagem;
|
.perda da autoconfiança;
.comportamento infantil;
. diminuição da motivação;
.aumento da irritabilidade,
agressão;
|
1.3. Abordagem Neuroanatómica: Tipos de Lesões
A lesão cerebral traumática apresenta-se
como sendo dinâmica e evolui durante as primeiras 48 horas.
Existem dois tipos de
lesão cerebral traumática: a primária e
a secundária. A primária é a
aquela que se desenvolve como consequência do impacto inicial; já a secundária pode desenvolver-se em
qualquer momento após o impacto inicial (Bravo & Bóveda, 2009 cit in Manual de Protocolos Y Actuación
En Urgencias Para Residentes, 2010).
Tabela 2. Tipos de Lesões
Lesões
Primárias
|
Lesões
Secundárias
|
Fraturas;
Contusões
e Lacerações da substância cinzenta;
Lesão
Axional Difusa;
|
Hematoma
Extradural;
Hematoma
Subdural;
Hematoma Intraparenquimatoso (ou Intracerebral): |
1.4. Classificação das Lesões
De acordo com
Oliveira, Webilinger & Luca, (2005), os TCE poderão ser classificados
quanto ao grau de risco: baixo, moderado
e alto. Quanto ao grupo de risco
baixo, este caracteriza-se por cefaleias, tonturas, hematomas ou cortes do
couro cabeludo; no grupo de risco
moderado verifica-se a existência de alterações da consciência no momento
do traumatismo ou depois, cefaleia progressiva, convulsão pós traumática,
vómito, amnésia, politraumatismo, traumatismo facial grave, sinais de fratura
basilar, possível penetração no crânio ou fratura com afundamento; por fim, no grupo de risco alto, verifica-se um
nível decrescente da consciência, sinais neurológicos focais, ferida penetrante
do crânio ou fratura com afundamento palpável.
1.5. Bateria de Avaliação
Neuropsicológica
De acordo com as alterações cognitivas
identificadas no caso clínico extraído do artigo “Reabilitação neuropsicológica
em fase aguda e crónica após Traumatismo Crânio- Encefálico (TCE) grave: relato
de caso” (Gouveia, Prade, Lacerda, Boschetti & Andreoli, 2009), a condição
apresentada pelo paciente era evidenciada por:
1.
desorientação têmporo-espacial;
2.
deficit
de fixação e evocação de informações novas (memória anterógrada);
3.
alterações atencionais graves;
4.
lentificação do processamento de
informações;
5.
alterações do controlo executivo;
6.
compreensão verbal flutuante, discurso
confuso e perseverações de assuntos;
7.
sem perceção crítica dessas
dificuldades;
8.
alterações do controlo executivo
(planeamento e controlo inibitório), do controlo do comportamento (desinibição
e inadequação social);
9.
impulsividade;
10.
desadequação no contexto social (o
paciente tinha reações exacerbadas de demonstração dos afetos);
11.
sintomas depressivos e ausência de
motivação;
12.
discrepância elevada entre a perceção
do familiar e do doente em relação às dificuldades do mesmo;
13.
sobrevalorização de quaisquer
dificuldades e procura excessiva de justificações para não realizar as tarefas;
14. agitação
psicomotora;
15. impulsividade;
16. irritabilidade
Considerando
as alterações identificadas no caso clínico, poderemos propor a seguinte
bateria de avaliação neuropsicológica para as funções cognitivas apresentadas:
Funções
Cognitivas
|
Avaliação
Neuropsicológica
|
Orientação
(Espacial; Temporal)
|
Mini Mental State Examination
|
Atenção Concentrada
Atenção Seletiva
Atenção Alternada
Atenção Dividida
Atenção Vigilante
|
Toulouse Piéron
Stroop
Trail Making Test Versão B
WAIS-R:
sequência de letras e números
BAPCON – Atenção Vigilante
|
Memória
(Verbal e Visual; Recente e Remota);
|
WAIS – R : Dígitos; Escala de
Memória de Wechsler: Lista de Palavras; Figura Complexa de Rey;
|
Perceção
Visuo-Espacial
|
WAIS - R : Cubos;
(considerar os resultados da prova
Figura Complexa de Rey, que também avalia a organização percetivo-visual)
|
Velocidade
de Processamento
|
Pesquisa de Símbolos; Código
|
Funções
Executivas: sequenciamento, planeamento, controlo executivo e inibitório,
flexibilidade cognitiva,
raciocínio
abstrato
|
WAIS-R : disposição de gravuras;
Semelhanças;
Trail Making Test B; Teste de Stroop
(já foram aplicados anteriormente)
|
1.6. Programa de
Reabilitação Neuropsicológica
Após
a administração da bateria de avaliação e análise dos resultados, poderemos
sugerir o seguinte planeamento do programa de reabilitação neuropsicológica:
Duração: 6 meses
Intensidade: 72 sessões – 6 meses; 4 semanas
por mês; 3 vezes por semana; 30/35 minutos;
Objetivos / Especialidade
·
Otimizar Orientação (Neuropsicólogo) -
6 sessões;
·
Otimizar Atenção (atenção concentrada,
seletiva) (Neuropsicólogo) - 12 sessões;
·
Otimização Memória (Neuropsicólogo)-
15 sessões;
·
Avaliação Neuropsicológica (ao fim de
3 meses);
·
Otimização Funções
Executivas/Raciocínio Abstrato/Planeamento-15 sessões;
·
Otimização Visual-Percetivo
(Neuropsicólogo) - 12 sessões;
·
Otimização Velocidade do Processamento
(Neuropsicólogo) - 6/12 sessões;
·
Reavaliação Neuropsicológica (a fim de
6 meses);
·
Gestão Vida Diária/ Atividades de
Reintegração à Sociedade, integradas em cada módulo, adaptada à função que está
a ser estimulada - (Neuropsicólogo; Terapeuta Ocupacional);
·
Otimização Linguagem (Terapia da Fala)
36 sessões (3x / por semana - 3x meses);
·
Intervenção ao nível da promoção de
competências cognitivas, emocionais, comportamentais, sociais e de autoestima
(Psicólogo Clínico) 24 sessões (1 x /por semana – 6 meses);
Não
obstante o trabalho desenvolvido ao nível do planeamento do programa
apresentado e o sucesso alcançado no processo de reabilitação, o neuropsicólogo
deve poder optar por um programa de reabilitação neuropsicológico,
cientificamente validado, para pacientes com Traumatismo Crânio-Encefálico.
Embora reconheçamos que uma determinada alteração cognitiva pode ser estimulada
por exercícios e atividades comuns às mesmas alterações cognitivas enquadradas
em outros quadros neuropsicológicos, os profissionais devem poder optar por um
programa de exercícios e atividades devidamente controlado e validado para a alteração
cognitiva, enquadrada num quadro neuropsicológico específico. (Isto é, uma
lesão, na área pré-frontal pode resultar em alterações cognitivas ao nível das
funções executivas. Neste sentido, embora saibamos que esta alteração pode ser
comum a um quadro de traumatismo crânio-encefálico, de acidente vascular
cerebral, ou outro tipo, em que determinados exercícios de estimulação cognitiva
poderão ser comuns nestes quadros, os profissionais devem poder recorrer na sua
prática clínica, a programas específicos e validados para cada quadro, e
abdicar da abordagem empírica recorrente na reabilitação neuropsicológica.
Considerando
os conteúdos assimilados e experiência profissional, os programas de
reabilitação neuropsicológicos devem considerar os seguintes princípios:
a) Ser sistémico e multidisciplinar, que
integram profissionais das diferentes áreas da reabilitação (caso seja necessário);
b)
Os exercícios e atividades de reabilitação
devem centrar-se nas alterações identificadas, mas também no fortalecer as
funções cognitivas não lesadas, as áreas fortes do paciente;
c)
Introduzir um caráter intensivo no
programa, de acordo com o nível de gravidade da lesão;
d)
Devem assumir-se como estimulantes e
diversificados (na medida em que devem conjugar exercícios de estimulação
cognitiva variados, dos manuais aos virtuais).No caso dos programas
exclusivamente virtuais, não podemos abdicar do contato humano com o
neuropsicólogos, com os cuidadores, família, pares, fundamental no processo de
reabilitação;
e)
Devem promover a generalização ao
contexto diário (realizar um planeamento de um trabalho de casa semanal, com
atividades diárias a adotar, de forma a voltar a realizá-las com autonomia);
f)
Devem integrar um caráter de
reintegração sócio-cultural, de introdução de atividades que permitem
readquirir a confiança necessária entre o grupo de pares. O paciente deve
voltar a desenvolver as atividades anteriores, mas também deve experimentar
outras diferentes, que por ausência de tempo, não tinha concretizado até ao
momento (desporto, dança, instrumento musical, voluntariado);
g)
Incluir a componente de gestão
cognitiva, emocional e comportamental, bem como o trabalho de promoção da autoestima
e auto conceito, através do trabalho com o Psicólogo Clínico.
Conclusão
A
investigação científica em neuropsicologia, ao ser desenvolvida neste sentido,
vai contribuir para o aumento da eficácia dos programas de reabilitação
neuropsicológicos, para o aumento da autonomia, funcionalidade, qualidade de
vida dos pacientes e cuidadores, assim como vai contribuir para o reconhecimento
da prática neuropsicológica em Portugal, nas vertentes clínica e de
investigação.
Tânia Alexandra Couto
Bibliografia
Bravo, A.; Bóveda, M. 2001. Traumatismo Cráneo-Encefálico. In: Manual de Protocolos y Actuatión En
Urgencias Para Residentes. p. 357-362.
Gouveia P.; Prade C.; Lacerda S.;
Boschetti, W. 2009. Reabilitação
Neuropsicológica em fase aguda e crônica após Traumatismo Crânio-Encefálico
(TCE) grave: relato de caso. Contextos
Clínicos, 2 (1): 18-26.
Oliveira, S.; Wibelinger, L.;
Luca, R. 2005. Traumatismo Cranioencefálico: Uma
Revisão Bibliográfica. FisioWebGate, 1-14. Obtido em 27 de
setembro de 2015. Do site: www.fisioweb.com.br.
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