As neurociências têm-se
apresentado como uma área científica em franca expansão, suscitando o interesse
e a atenção de vários investigadores bem como da comunidade em geral, dado o
fascínio que o conhecimento sobre o cérebro, o seu funcionamento e a forma de o
estimular têm despoletado. A neurociência é uma ciência recente que estuda o
sistema nervoso central bem como sua complexidade, através de bases
científicas. As recentes
investigações em torno da temática procuram não só conhecer mais
aprofundadamente o cérebro e as suas especificidades como também correlacionar
esta informação com outros saberes, tais como a educação e a psicologia,
confluindo em novos doutos como é o caso da neuroeducação.
A neuroeducação enquanto
ponte entre os conhecimentos emergentes das neurociências cognitivas e as
estratégias psicopedagógicas ligadas à aprendizagem tem vindo a ser palco de
varias investigações cientificas. De acordo com a literatura encontrada, uma
das grandes lacunas da investigação prede-se com a aplicabilidade dos
conhecimentos científicos emergentes e com a dificuldade de trazer para a
pratica os conhecimentos encontrados em laboratório. Embora o termo não seja consensual, esta
relação entre as neurociências e a educação é definida pelos vários autores
como ponte entre o conhecimento científico inerente às funções cerebrais
(incluindo a base cognitiva da aprendizagem) e a organização de melhores
práticas de ensino.
Apesar da descrença
inicial face à sua aplicabilidade, vários autores têm vindo a demonstrar a
importância do intercâmbio entre as neurociências e a educação na estruturação
de metodologias em sala de aula bem como na reformulação curricular e na
melhoria da qualidade do ensino. Fonseca (2007) ressalva a importância de
desenvolver programas de enriquecimento cognitivo adaptado ao contexto de
ensino de cada aluno.
Segundo as diretrizes da
OCDE (2009), a Neuroeducação permite desenvolver novas práticas de ensino de
modo a tornar a aprendizagem mais efetiva. A existência de benefícios
significativos no conhecimento da atividade do cérebro, na monitorização das
aprendizagens e avaliação da eficácia da instrução uma vez que o processo de
aprendizagem tem por bases estruturas neurobiológicas em que as suas principais
funções cognitivas seriam:
- atenção,
- perceção,
- memória,
- linguagem
- funções executivas
(Fonseca, 2007)
A aprendizagem envolve
ativamente a construção de redes neurais que conectam funcionalmente muitas
áreas cerebrais. Existem vários caminhos para o desenvolvimento de habilidades
eficazes, por exemplo, na leitura ou matemática. O trabalho da educação é
fornecer apoio a crianças com diferentes perfis neuropsicológicos para
desenvolver eficaz, ainda habilidades flexíveis. Além disso, já existe
evidência de que as capacidades gerais que definem a aprendizagem, tais como
estudos de compreensão geral dos conceitos concretos e abstratos, estão ligados
a sistemas cognitivos.
Recentemente, outros
autores têm vindo a salientar a importância da dialética entre as neurociências
e a educação na estruturação das aprendizagens e na melhoria do sucesso
educativo, ressaltando que as descobertas neuroeducativas devem ser
cuidadosamente implementadas e avaliadas a partir de microcosmos de ensino
antes de serem generalizadas. A aprendizagem é mediada por estruturas e funções
cognitivas e o seu conhecimento por parte dos educadores permite desenvolver
estratégias com base em evidências científicas para formar o que seriam
“neuro-educadores”.
O avanço dos
conhecimentos na área das neurociências e a sua aplicabilidade nos têm vindo a
ser referidos na literatura como uma mais valia na estruturação de programas de
aprendizagem embora sejam salientadas lacunas na aplicabilidade pratica destes
conhecimentos aos contextos educativos.
De acordo com a relação entre os princípios da neurociência sobre como o
cérebro aprende e as estratégias que podem ser criadas no ambiente de sala de
aula, é possível salientar que:
1.
a
aprendizagem, a memória e as emoções funcionam de forma interligada no processo
de aprendizagem.
2.
a
aprendizagem é uma atividade social e, como tal, os alunos beneficiam de
oportunidades para discutir tópicos, expor sentimentos e ideias.
3.
o cérebro
vai se modificando com base nas experiência vivenciadas – aulas práticas e
exercícios físicos quem envolvam ativamente os participantes potenciam
associações entre as experiências prévias os novos conhecimentos
4.
embora a
capacidade de aprender não se esgote na idade adulta, o cérebro tem períodos
ótimos (períodos sensíveis) para certos tipos de aprendizagens,.
5.
o cérebro é
detentor de plasticidade neuronal (sinaptogênese), podendo aprender e adquirir
novas aprendizagens ao longo de toda a vida.
6.
áreas
diferentes do córtex são ativadas simultaneamente no decurso de novas
experiências de aprendizagem – ao interligar os novos conhecimentos com
situações anteriores é possível “ancorar” a informação nova na compreensão
anterior, potenciando assim a aprendizagem.
Com base nestes
princípios, é possível afirmar que conhecer as bases neurobiológicas do
processo de aprendizagem torna-se crucial para o ato pedagógico, surgindo a
necessidade de aprofundamento sobre esse novo saber disciplinar ainda tão
desconhecido pela maioria dos professores. Este ramo novo da ciência estuda
educação e cérebro e defende que este último é passível de ser modificado pela
prática pedagógica.
A promoção de estratégias pedagógicas deveria requerer o conhecimento de
como funciona este cérebro, uma vez que o cérebro é o órgão principal da
aprendizagem.
Conhecer o cérebro e o seu funcionamento permite ainda uma melhor
compreensão de algumas situações sinalizadas como “distúrbios, dificuldades,
transtornos, discapacidades, problemas”, de aprendizagem. Muitas destas
situações são empregues de forma inadequada, por desconhecimento das alterações
funcionais que lhe está na base.
No entanto é fundamental ter em consideração que “Saber como o cérebro
aprende não é suficiente para a realização da mágica do ensinar e do aprender
assim como os conhecimentos dos princípios biológicos básicos não são
suficiente para que os médicos exerçam boa medicina.” (Cosenza, 2011)
Algumas considerações para implementar na sala de aula:
Estímulos Multi-sensoriais: as pesquisas mostram que a
aprendizagem é mais eficaz e a recordação da informação mais fácil se mais
sentidos forem estimulados.
Memória: sem repetição a memorização não acontece, a
rememoração falha, perde-se a informação, o tempo e a motivação.
Emoção: a emoção está
intimamente ligada à memorização da informação.
Conhecimento prévio: a aprendizagem é mais
significativa se a informação nova não estiver contextualizada e conectada a
conhecimentos que já existem.
Do concreto para o abstrato: o lobo frontal, sede do nosso
pensamento abstrato, demora mais a se desenvolver e dessa forma, devemos
começar com exemplos concretos para atingir ideações abstratas.
Práticas: quando uma informação é colocada em prática ela é
mais facilmente recordada.
Estórias ou histórias: elas ativam muitas áreas cerebrais
porque evocam emoções, memórias e ideias. Ao terem início, meio e fim, permitem
também estimular o desenvolvimento de habilidades de sequenciação e organização
(córtex pré-frontal).
Sintetizando, ao sabermos um pouco mais sobre a forma como o cérebro aprende podemos potenciar as estratégias para o ensinar!
Catarina Calado