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segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Neuromitos na Educação e na Saúde

O cérebro humano estabelece ligações neuronais ao longo de toda a vida e estas podem ser desenvolvidas, estimuladas ou reabilitadas, através de atividades especificas, de modo a melhorar o funcionamento individual e aumentar a qualidade de vida.

O projeto “Neurociências na educação e saúde” visa desenvolver um espaço de diálogo, reflexão e exposição de informação, em torno das áreas das neurociências, da psicologia, da educação, do desenvolvimento e da saúde e surge da necessidade de congregar conhecimentos nestes domínios.
Ao longo dos últimos vinte anos, em particular na última década, as neurociências têm sofrido avanços consideráveis nomeadamente no que toca ao conhecimento do funcionamento cerebral e das bases biológicas do comportamento e da aprendizagem do ser humano.
No seguimento destes avanços, o cérebro tem-se tornado tema recorrente em conversas, notícias de revistas e artigos online, permitindo a cada sujeito criar ideias e tecer opiniões relativamente a esta questão. No entanto, muito deste conhecimento não é devidamente aprofundado dando lugar a “conceções errôneas” sobre o funcionamento do cérebro que, segundo a OCDE (2003) são classificadas como “neuromitos”, isto é, como ideias ou opiniões que não são fundamentadas pelo conhecimento neurocientífico e que, por isso mesmo, são consideradas erradas (Abimbola & Baba, 1996).
De entre os vários “neuromitos” existentes, há três que se destacam, não só pela frequência com que surgem na comunicação mas também pelas consequências que podem despoletar: a existência de períodos críticos, a conceção hemisfério esquerdo vs hemisfério direito e a utilização limitada do cérebro.
O conceito de períodos crítico tem por base a ideia de que a plasticidade cerebral, enquanto desenvolvimento e aquisição de competências específicas (como a linguagem e o raciocínio) está limitada aos primeiros anos de idade sendo impossível, adquirir essas competências posteriormente. Contudo, pesquisas contemporâneas defendem a possibilidade dos estímulos ambientais despoletarem novas ligações entre os neurônios e, consequentemente, evidenciam que a plasticidade não é limitada aos primeiros anos mas que ocorre ao longo de toda a vida, alterando a conceção de “período crítico” para “período sensível” (período em que é mais fácil conquistar certas aprendizagens, sendo possível que essas capacidades sejam desenvolvidas posteriormente). É ainda de referir, como evidencia de plasticidade ao longo da vida, que as lesões cerebrais não são permanentes e é possível haver recuperação das vias nervosas afetadas (mesmo que não na sua totalidade), dependendo do local em que ocorre e da severidade da lesão. A explicação deste fato prende-se com a capacidade que o cérebro tem em desenvolver novas conexões, direcionando as funções afetadas para outras áreas saudáveis.
O segundo "neuromito" mais frequente tem por base a ideia de separação funcional do cérebro em hemisfério esquerdo e hemisfério direito, atribuindo a cada um deles um modo de funcionamento próprio com funções específicas separadas tem também sido contraposta. Estudos recentes têm demonstrando que a cognição humana é demasiado complexa para ser controlada por um único hemisfério e que existem redes neuronais em constante comunicação interhemisférica.
O terceiro “neuromito” prende-se com a limitação do funcionamento da atividade cerebral a 10% do cérebro sem que haja, no entanto, evidências científicas que confirmem este fato – de acordo com os conhecimentos disponíveis, o nosso cérebro funciona a 100%, sendo pouco provável que a evolução permitisse o desperdício de recursos necessários para estruturar um órgão tão ineficiente e apenas parcialmente usado (Beyerstein, 2004).
Os avanços neurocientíficos têm também permitido construir e melhorar estratégias para intervir ao nível das dificuldades de aprendizagem (ao evidenciar as fases e os processos base da aprendizagem e ao permitir conhecer as especificidades individuais de cada um enquanto aprendiz), da promoção do desenvolvimento e do envelhecimento ativo (ao evidenciar noções como plasticidade cerebral e flexibilidade mental) e da reabilitação neuropsicológica (ao estudar o funcionamento dos vários processos cognitivos e das formas de os estimular).
Autores como Byrnes e Fox (1998) destacam o impacto que estes saberes têm despoletado no quotidiano, nomeadamente no que toca à estruturação das aprendizagens e à compreensão da dinâmica dos processos de pensamento. Estudar não é uma competência inata, é algo que se adquire, que se melhora, que evolui e se aperfeiçoa com o tempo. Deste modo, conhecer a forma como cada aluno aprende  permite ajustar o processo de aquisição de conhecimentos não só às suas necessidades como também às suas potencialidades.
Na área da saúde, investigações recentes têm-nos demonstrado a importância do exercício mental para a preservação da funcionalidade cognitiva uma vez que a estimulação e a reabilitação cognitiva assumem um papel central na qualidade de vida e diminuem a possibilidade de desenvolver doenças degenerativas (nomeadamente o alzheimer).
É ainda de salientar que o treino e a estimulação cognitiva potenciam a plasticidade cerebral, aumentando o êxito dos sujeitos nas várias tarefas e melhorando a eficácia do funcionamento cognitivo (Cartwright, 2001).
*      Realize diariamente exercícios divertidos que estimulem as competências cognitivas;
*      Faça pequenas pausas para relaxar (10 a 15 minutos) entre as atividades que exigem alto nível de concentração;
*      Fomente a leitura diária começando com pequenos textos, que deverão, progressivamente, aumentar em tamanho e em grau de complexidade;
*      Incentive a aprendizagem de um instrumento musical ou a realização de atividades desportivas;
*      Estimule a pratica de atividades novas e diferentes das tarefas rotineiras do dia-a-dia – os novos desafios para além de serem envolventes são uma ótima forma de exercitar o cérebro



Sintetizando, o projeto “Neurociências na educação e saúde” procura ir de encontro a temas de interesse comum neste campo de saberes, fazendo a ponte entre os conhecimentos e a sua aplicação prática. 
Catarina Calado

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