O cérebro humano estabelece
ligações neuronais ao longo de toda a vida e estas podem ser desenvolvidas,
estimuladas ou reabilitadas, através de atividades especificas, de modo a
melhorar o funcionamento individual e aumentar a qualidade de vida.
O
projeto “Neurociências na educação e
saúde” visa desenvolver um espaço de diálogo, reflexão e exposição de
informação, em torno das áreas das neurociências, da psicologia, da educação,
do desenvolvimento e da saúde e surge da necessidade de congregar conhecimentos
nestes domínios.
Ao
longo dos últimos vinte anos, em particular na última década, as neurociências
têm sofrido avanços consideráveis nomeadamente no que toca ao conhecimento do
funcionamento cerebral e das bases biológicas do comportamento e da
aprendizagem do ser humano.
No seguimento destes
avanços, o cérebro tem-se tornado tema recorrente em conversas, notícias de
revistas e artigos online, permitindo
a cada sujeito criar ideias e tecer opiniões relativamente a esta questão. No
entanto, muito deste conhecimento não é devidamente aprofundado dando lugar a “conceções
errôneas” sobre o funcionamento do cérebro que, segundo a OCDE (2003) são classificadas
como “neuromitos”, isto é, como ideias ou opiniões que não são fundamentadas
pelo conhecimento neurocientífico e que, por isso mesmo, são consideradas erradas
(Abimbola & Baba, 1996).
De entre os vários
“neuromitos” existentes, há três que se destacam, não só pela frequência com
que surgem na comunicação mas também pelas consequências que podem despoletar:
a existência de períodos críticos, a conceção hemisfério esquerdo vs hemisfério
direito e a utilização limitada do cérebro.
O conceito de períodos
crítico tem por base a ideia de que a plasticidade cerebral, enquanto desenvolvimento
e aquisição de competências específicas (como a linguagem e o raciocínio) está
limitada aos primeiros anos de idade sendo impossível, adquirir essas
competências posteriormente. Contudo, pesquisas contemporâneas defendem a
possibilidade dos estímulos ambientais despoletarem novas ligações entre os
neurônios e, consequentemente, evidenciam que a plasticidade não é limitada aos
primeiros anos mas que ocorre ao longo de toda a vida, alterando a conceção de
“período crítico” para “período sensível” (período em que é mais fácil
conquistar certas aprendizagens, sendo possível que essas capacidades sejam
desenvolvidas posteriormente). É ainda de referir, como evidencia de
plasticidade ao longo da vida, que as lesões cerebrais não são permanentes e é possível haver
recuperação das vias nervosas afetadas (mesmo que não na sua totalidade),
dependendo do local em que ocorre e da severidade da lesão. A explicação deste
fato prende-se com a capacidade que o cérebro tem em desenvolver novas
conexões, direcionando as funções afetadas para outras áreas saudáveis.
O segundo
"neuromito" mais frequente tem por base a ideia de separação
funcional do cérebro em hemisfério esquerdo e hemisfério direito, atribuindo a
cada um deles um modo de funcionamento próprio com funções específicas
separadas tem também sido contraposta. Estudos recentes têm demonstrando que a
cognição humana é demasiado complexa para ser controlada por um único
hemisfério e que existem redes neuronais em constante comunicação interhemisférica.
O terceiro “neuromito”
prende-se com a limitação do funcionamento da atividade cerebral a 10% do
cérebro sem que haja, no entanto, evidências científicas que confirmem este
fato – de acordo com os conhecimentos disponíveis, o nosso cérebro funciona a 100%,
sendo pouco provável que a evolução permitisse o desperdício de recursos
necessários para estruturar um órgão tão ineficiente e apenas parcialmente
usado (Beyerstein, 2004).
Os
avanços neurocientíficos têm também permitido construir e melhorar estratégias
para intervir ao nível das dificuldades de aprendizagem (ao evidenciar as fases
e os processos base da aprendizagem e ao permitir conhecer as especificidades
individuais de cada um enquanto aprendiz), da promoção do desenvolvimento e do
envelhecimento ativo (ao evidenciar noções como plasticidade cerebral e
flexibilidade mental) e da reabilitação neuropsicológica (ao estudar o
funcionamento dos vários processos cognitivos e das formas de os estimular).
Autores
como Byrnes e Fox (1998) destacam o impacto que estes saberes têm despoletado
no quotidiano, nomeadamente no que toca à estruturação das aprendizagens e à
compreensão da dinâmica dos processos de pensamento. Estudar não é uma
competência inata, é algo que se adquire, que se melhora, que evolui e se
aperfeiçoa com o tempo. Deste modo, conhecer a forma como cada aluno aprende
permite ajustar o processo de aquisição de conhecimentos não só às suas
necessidades como também às suas potencialidades.
Na
área da saúde, investigações recentes têm-nos demonstrado a importância do
exercício mental para a preservação da funcionalidade cognitiva uma vez que a
estimulação e a reabilitação cognitiva assumem um papel central na qualidade de
vida e diminuem a possibilidade de desenvolver doenças degenerativas
(nomeadamente o alzheimer).
É ainda de salientar que o treino e a estimulação cognitiva potenciam a plasticidade cerebral,
aumentando o êxito dos sujeitos nas várias tarefas e melhorando a eficácia do
funcionamento cognitivo (Cartwright, 2001).
Sintetizando, o projeto
“Neurociências na educação e saúde” procura ir de encontro a temas de interesse
comum neste campo de saberes, fazendo a ponte entre os conhecimentos e a sua
aplicação prática.
Catarina Calado
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